terça-feira, 29 de dezembro de 2009

és

és branca e bela
pureza...
és manhã de primavera
um retrato enquadrado
entre sorrisos alegres
e tua alegria me renova
e teu sorriso me desata os pesares

és tão bela
quanto flor que rosa salta
quanto um céu azul estrela
és tão bela
e de tão bela
me distorce os sentidos
sentidos, sentimentos
me distorce os pensamentos
que carrego na certeza
de que tal pureza
é o futuro em que julgo morar

és uma flor
sem espinhos ou tolices
de pétalas coradas
e caule imerso em carícias
és a mais primorosa
entre as diversas no jardim
a rainha serenata
a paixão fundamentada
és de fato a mais bela
e não avisto outra igual
por essa tão longa estrada
que corre em meu coração

domingo, 20 de dezembro de 2009

ventania

quem bate a porta
alheia aos ventos e folhas
são ventos quietantes
e folhas grileiras

quem recorre ao encantamento
de tratos e tratados
de tantos em tantos
tesouros de folhas

se voam, ecoam
em ninhos de acaso
em ninhos, caminhos

quem bate a porta
reclusa aos ventos de encanto
quem ousa atirar-me ao viver
de momentos dispersos

em sono angustiante
em sonhos pesados
se bates a porta
dê brechas a brisa
que entoa o meu ser

domingo, 13 de dezembro de 2009

sinestesia

e, de repente, ela surgiu
como uma sinestesia
em olhar salgado
como um efizema
angustiante e essencial

de repente, ela me olhou
como uma dama Gioconda
como em um prisma salgado

de repente, ela se foi
largando curvas perigosas
deixando um rastro perfumeiro

de repente, honestamente
ela surgiu, me olhou e partiu
e me restou um ruído rosa
tão amargo quanto o mel

domingo, 29 de novembro de 2009

teu anseio

se me anseias derradar
basta alçar-me seu viver
basta andar de costas nuas
nua inteiro após um beijo

se me anseias derradar
faça sombras sobre mim
silhuetas imorais
de teu corpo em movimento

se me anseias derradar
veja a luz solar erguer-se
ao meu lado, entrelaçados
entre tiras de paredes
entre brisas
entre nódoas
se me anseias derradar
dê-me a alma incinerada

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

bailares?!

no começo ela sentada
moça nobre, recatada
mas o tempo recorre
quer a moça no salão
vem primeiro o par na valsa
cavalheiro, bom rapaz
mas o tempo é implacável
e o vestido escorrega
vira calça, vira saia
vira mini, micro-saia
e o cavalheiro agora é ogro
fala grosso, xinga, zomba
mas a moça vai gostando
e o tempo vai passando
vem o short, a blusa curta
vem o baile, a dança bruta
e já não há cavalheiros
a valsa sai
surge a batida
e enquanto a moça - já sem roupa
vai quebrando e requebrando
eu, sujeito saudosista
vou ter que virar artista
pra poder galantiá-la

domingo, 15 de novembro de 2009

carreata

todo dia
o dia todo
toda hora
a todo instante
esse povo é apressado
mas a pressa não responde
engarrafa
anda
freia
e depois segue adiante
pra num ponto mais a frente
começar tudo de novo

oh! vidinha sem intuito

terça-feira, 10 de novembro de 2009

vento

quando corria
batia-lhe o vento

quando sorria
batia-lhe o vento

quando chorava
batia-lhe o vento

quando me olhava
batia-lhe o vento

quando dormia
batia-lhe o vento

e assim seguiamos adiante
eu
meu amor
e um vento cálido

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

a flor

a flor era branda
nascente ao meio dos dias tristes
era um flor cotidiana
de pétalas soberbas no encantamento
tal qual um olhar de donzela

passavam vidas e despedidas sobre a flor
que encolhida não viria às vistas cegas
tão somente em primaveras
quando as floras tavam tom
ao brilho exímio de uma tarde coral
é que a flor sorria alegre
pena os pés acelerados
de manhãs comerciais
não se renderem à lúcida flor
soterradas por angústias
que de fatos massacrantes
recusavam o andar ditoso

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

máscara

desatem seus laços
derrubem primores
destruam suas máscaras
suas máscaras
tão rotas
tão velhas
tão sujas
destruam suas vidas
por baixo do pano
destruam seus marcos
morais por engano
seja humano como tal
e se a máscara insistir
faça dela uma verdade

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

desamor

e se o amor existisse
sensível
sofrível
se existisse
o que seria das tardes ausentes de ti
geladas
amargas
o que seria das tardes
e se não pregasse a vista pensando em ti
se esquecesse do tempo
das luz das trevas
e se inventasse de te amar

ah! se o amor existisse

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

tolice

ah! moça eu bem que disse
que amor é causo tolo
te avisei o não render
de tardes cegas em paixão

prefiro engatos na viola
papos esmos ao acaso
prefiro noites sonolentas
que o clarão sentimental

ah! moça eu bem que disse
mas me arrastaste à utopia
de sofrer pela ilusão
complexa e amorosa
que é viver em simbiose
a tu'alma limpa, meu amor

sábado, 10 de outubro de 2009

canção

ai quem me dera
uma viola
um violino
um violão
ai quem me dera um clarinete
pra eu fazer minha canção

ai quem me dera
uma memória
um enredo
uma canção
ai quem me dera ter o dom
de traduzir o coração

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

bela

são lisos e loiros
diria lisos, loiros, brilhantes
são belos
cabelos e olhos e pele
são belos

e o sorriso...
de tão doce em semblante
de tão leve, marcante
é um brinde aos sentidos

são belos
cabelos e olhos e pele e o sorriso

és bela
és alegria entre enganos
és montanha de sonhos
és prova...
de que nem só de angústias
é feita uma vida

terça-feira, 6 de outubro de 2009

dias ferreira

sobre as almas um palanque tonelado
regado em talentos barbados e corados
melodiosos ritmos no embalo
cancionam o jazz festivo em humor
acima um céu fumacê alvo
dispensável e dispersado
com a emoção noturna em instante
proclamada a brados largos
na amplitude de um momento
muito além do que se vê

hipótese

e se a noitada cair?
e o ardor consentir?
se o calor persistir?
o azedume dormir?

e se a vela climar?
o sorriso chamar?
se o olhar se cruzar
com o da moça a cantar?

vão nas nuvens rolar
entre beijos se afogar
com tons vibrantes rubrar
a noite intensa de amar

domingo, 4 de outubro de 2009

mundanos

se imundo me chamas
mundana tu és
se covarde me chamas
mundana tu és
se mundano me chamas
mundanos seremos
mundanos, covardes, imundos
chama-me como quiseres

marchinha

quero te beber no gargalo
quero tê-la sob as mãos

vou te musicar em paródias
sou risote
sou pagão
sou trilingue em paixão
sou doutor
sensação

és tão profunda
és tão sincera
sei que és intensa
e madura no amor

e no amor
sou indencente
vou te cobrir
em minhas carícias imorais

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

marisa

quando vi Marisa ao longe
a notei tão bela e nobre
que pensei ser só miragem
devaneio a mente minha

mas Marisa era presente
passeava pelo asfalto
com sorriso encantado
e seus traços indecentes

marisa vinha achegando
era linda, os olhos claros
fita rosa no cabelo
e amor límpido no peito

de repente, adeus Marisa
no sumiço das esquinas
cada um fugiu prum lado
sendo assim melhor pros dois

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

o monte

ah! uma tarde sobre o monte
o ar puro, os pássaros, os frutos
a vista, a brisa, a natureza

ah! uma tarde sobre o monte
o ocaso, o mudo, o monte
a paz, a calma, a tarde

ó Deus, essa vida sob o monte
a pressa, a dor, a angústia
o calabouço, a realista e o sonho
de passar uma tarde sobre o monte

terça-feira, 29 de setembro de 2009

aos íntimos, Zé

a festa acabou
acabou a festa
não há José
nem ninguém
que indique um norte

a luz apagou
apagou a luz
e José, no escuro
rumando à luz
indicada ao longe
não viu que na festa
o fim consagrou-se

o povo sumiu
sumiu o povo
e José já aflito
não viu que no breu
foi-se o povo
e a festa

a noite esfriou
esfriou a noite
e José sem luz
sem povo
sem festa
cochilou nos versos
de um poema encantado

sábado, 26 de setembro de 2009

nêgo

e Nêgo sambou
sambou tardes
sambou noites
e o Nêgo não parava

todos vinham
ver o Nêgo
um sambista de primeira
que brindava com sorrisos
a platéia curiosa

fez-se chuva
veio o sol
e o Nêgo requebrava
jornalistas, colunistas
se inclinavam
ao dom do Nêgo
e o moço não parava
só sambava
só sambava

dias, meses
depois anos
multidões se impressionavam
com o nêgo a sambar

foi quando o moço
cansado
fugiu pra casa e dormiu
e a esperança do povo
de revoltada sumiu

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Poeta Morto

Quando romper-se a fibra
Convivente em meu peito
Não chores no dolo cruel
Sorria, pois, em memória
De venturas conjuntas a mim.

Não quero causos tristes
Nem cultos a minha postura.
Não quero menções póstumas
Nem bustos banhados a cobre.

Levo apenas a saudade
De que um dia me amou.
Dias longe serão golpes
Mas concentras em viver.

Descansa sã, meu amor
Não se espelhe em solidão
Persistirei ao lado teu
Mesmo a nuvens de penar.

Ascendo às graças criadoras
Satisfeito em minha missão
E que se leia no epitáfio:
O poeta imortal.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Cantiga de Escárnio

Alado aos louros virtudiosos do prazer
E o seguinte segundo, me expressa uma essência
Estado à beira de escárnios do insucesso
Me adapto, e assim, torno-me adepto da vida fluente
Buscando em miragens, traçados reais
Que dançam euforicamente em minha retina
Brindando as vitórias de um futuro impretérito.

Anderson Ferreira e Gabriel Pereira

-Gabriel Pereira posta em: riscodevapor.blogspot

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Esconderijo

O que escondes nesses cachos
Tão belos, tão belos, tão seus?
Episódios de tristeza
De um pretérito infeliz?

O que escondes nesses olhos
Tão belos, tão belos, tão seus?
Amarguras incapazes
De ascender seu ego anil?

O que escondes dos meus olhos
Recaídos sobre ti?
Sentimentos de donzela
Tão belos, tão bela, tão seus!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Dúvida

Duvido.
Duvido que tragas à mesa suas taras
Seus fetiches
Fantasias.

Duvido que se deite em minha lábia
Meus elogios
Galanteios.
Duvido!

Duvido que me cale os ouvidos
Os sentidos
A gemidos.

Duvido fazer-me duvidar de mim.
Sou coerente
Condizente a minhas idéias.
Mas duvido sequestrar-me dos prazeres
amorosos de tê-la em minhas mãos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Conto de Tarde

Foi quando soprou
Um vento forte e ruborizado
No alto estresse da sociedade
Levando ódios
Levando medos
Levando angústias
E corações caíram ao chão.

Trança

Na trança
da moça
de vida
perdida
eu busco
a saída
Vingança
procuro
do tédio
do ócio
presentes
no mundo.

Na trança
perdida
no tédio
da vida
procuro
presentes
pra moça
que busca
vingar-se
do ócio
saída
pro mundo.

Na trança
da vida
movida
por tédio
procuro
a moça
que esconda
em meu peito
o vazio
refeito
por roubo
despeito
na ausência
do órgão
que bata
em vermelho
levado
de mim.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Bilhete

Na sala, a carta pra vizinha
Que caira em casa errada
Era lida entre família
Indiscretos curiosos.

Em versos livres, cancionados
Um remetente apaixonado
Descrevia sentimentos
Comoções pra sua amada.

Sufocado se dizia
Por distar da namorada
E seu peito sangraria
Se constante a situação.

Pós leitura do poema
Todos mudos se olharam
E soltaram gargalhadas
O amor inda existia.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Sentimentalismo

Abaixo amores dolorosos.
Abaixo cultos ao sofrer
Citações salgadas
Canções castigadas.

Amor é estrela fluorescente
É cruzar mares corados.

Quem ama atenta à vida.
Quem ama faz alimento
Nascer de noites cândidas.

Não quero angústias de amor.
Quero beijos.
Quero olhos
Ser amante de virtudes sentimentais.

sábado, 29 de agosto de 2009

Feira de Livros

Quanto custa um de Moraes?
Três sonetos de Hiroshima.
E um Nando Pessoa?
Um litro de lágrimas portuguesas.
Quanto custa um Bandeira?
Mil lirismos libertinos.

Então me vê um Drummond
E chuto as pedras em seu caminho.

HuMorte

Certa vez, o humor do moço
O levou ao bar sombrio.
Bebeu taças.
Bebeu tanto
Que depois caiu no rio.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Olhos Vivos

Vi dois postes
Mendigos
Vi amigos.

Vi calçadas trapaceiras
Povo insano
Malabares.

Vi sinais, pipas, jornais.
Vi donzelas
Sorrisos.
Vi angústias
Três crianças
Brincadeiras
Mesas-bares.
Vi cachaças.
Vi cervejas.

Vi seus olhos
Verde-flora
E dormi
Pra te guardar na retinas
Tão cansadas de te amar.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Refatos

Largue livros
Roupas
Lembranças
Pesos mortos
Enfeites
Relógios.
Não se atrase.
Raro é o tempo.
Ligue aos Sousa
Peça um leito.
Traga apenas as crianças
Os afinos.
Animais.
Não se esqueça da viola
Atrás da estante do bebê.
Ore aos deuses.
Céu.
Olimpo.
Rogue a chance de virada.
Estamos fartos de tais crises.
Olhe apenas a sua frente.
Siga
Corra, meu amor.
Vem ao longe os maquinários
Derrubando posses caras.
Curta é a fila de despejos.
Somos vítimas
Ciganos.
Sigo amando a ti, pequena.
Perdoe-me o desencanto.
Traga pouco
Não inventa
Fuja aos passos da esplanada.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

À Moça

Pálida, à luz ingrata entre cortinas
Sobre um privilegiado leito colorido
Como imagem do primor feminino
Embalada, figurava, por canções de sono.

Sob mantos não decentes
Recatava os seios entre os dedos
Era um anjo! Virgem deusa
Banhada a sonhos palpitantes.

Por ti, seguirei sempre amante.
És retrato da beleza.
Negros olhos, pele lisa.
És meu anseio passional.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Infância

Ah! Minha infância de volta
E os beijos amargos de tia
E os lanches de mãe na lancheira.
Quem dera o ócio perdido em desenhos
Ter o sono cego e aconchegante.
Quem dera amizades de escola
Pernas tombadas ao esporte
E sonhos ingênuos
E metas distantes
E culpas isentas
E mimos...
E doces...
E risos...
Ah! Minha velha infância de volta.

domingo, 16 de agosto de 2009

Autoretrato

Sou parte provável
Retrato do mundo.
Sou nexo escasso
Sambista boêmio.

Sou povo, assembléia
Mistério em comum.
Sou estranho, sozinho
Vivente calado.

Sou planos.
Sou sonhos
Sensato gritante.
Sou louco
Anarquista
Mendigo de idéias.

Sou vida na morte.
Sou repentino
Constante.
Sou delirante
Tradutor do que sou
Paradoxo ambulante.

sábado, 15 de agosto de 2009

Seios

Os seios de fora guardavam atenção.
Homens e filhos de pescoço erguido.
- "São seios tão belos!"
- "São seios tão puros!"
Mas estais enganado.
São seios pincelados
Apalpados.
São seios dourados
Abusados por mãos.
As mãos do pintor que os pôs na tela.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Areal

Sol
brilhante.
Sal
marcante.

Sol marcante
no brilho do
olhar salgado.

Brilho
ausente.
Beijo
ardente.

Beijo ausente
no ardor dos
lábios brilhantes.

Ah! O brilho dos beijos salgados sob o sol.

sábado, 18 de julho de 2009

Pequeno Leitor

Intitulava-se leitor. Digo mais: era um curioso leitor. Mergulhava em jornais e revistas, não mudando de atividade até secá-los em suas totalidades informativas. Sempre leu. Desde que aprendera (é claro!) não mais parou. E, em vividos nove anos, podia declarar-se um viciado em contextos letristas. E não havia quem pudesse discordar. Implorar por livros em amigo-ocultos não é visto aos montes. Mais ainda ao se tratar em trocas de lembranças nas épocas de Páscoa. Enquanto os guris pediam barras e ovinhos, ele insistia nos gibis. O curioso é nunca ter buscado auxílio no dicionário. Talvez pela facilidade da leitura encontrada na época. Quando não conhecia certo verbete acionava os níveis de inteligência do pai. Que por sua vez, orgulhava-se da "sabedoria malandra" que a vida dadivou-lhe. Malandra?! Possivelmente por forjar semânticas torpes quando desconhecia as verídicas noções desta ou daquela palavrinha embriagada em complexidade. O menino sempre aceitava. "Meu pai é muito sabido".
Certa vez, consultou o pai sobre o sentido de "patacões". Tinha lido em um de seus diversos livros.
-Patacões?!
-É, pai. Patacões.
-Essa é difícil. Vê pelo contexto.
-Você não sabe?!
-Claro que sei.
-Duvido!
O menino tinha o dom de arrancar frases inteiras do pai, através de suas ironias diminutivas.
-Eu sei o que é.
-O que, então?
-Patacões são pontapés.
Óbvio que não sabia. Patacões não eram, nem de longe, pontapés. Tratava-se de moedas antigas e usuais em Portugal. Não para o pequeno leitor que, agora, conhecia o sentido de "patacões". Um falso significado, é bom que se diga. Mas conquistado tal como da vez em que ouviu falarem em "efígie". Ou quando leu em outros de seus rebuscados livros a palavra "lograr". Após um diálogo pra lá de esclarecedor com o pai herói, descobriu que a primeira queria dizer calça, enquanto o verbo "lograr" significava limpar. Ah! Esse pai sabido. A leitura do filho parecia-lhe mais radical a cada dia. Antes era tarefa simples explicar o sentido de mascotes, flâmulas e estigmas que iam surgindo nos textos lidos pelo garoto. Não mais! A mentira agora era a única solução encontrada para não parecer ser ausente da sapiência orgulhada pelo filho. O fato é que "lograr efígies" é, na verdade, "pintar retratos". O pai realmente não sabia o real nexo de certas palavras. De certo, é por isso que não entendeu o questionamento do menino sobre as antigas formas de pagamento, quando ouviu sua avó dizer que "cobraram trinta patacões para lograr efígies do Buarque". Ah! Esse pai sabido.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Loucura

O homem invade a arena portando sob o braço, um corpo de forma esférica. O objeto possui alguns desenhos e a arena apresenta largas e extensas listras. O sujeito não surgiu só. Junto a ele estão outros que, não sei por que diabos, trajam malhas idênticas ao que tem posse do corpo rotundo. Em mãos, trazem algumas bandeiras, que no auge de minha ignorância a nações alheias, não pude identificá-las como de nenhum país. Naquele momento, alguns dos que estavam próximos a mim puseram-se a pronunciar calões que não apresentam ares suaves a ponto de expor. Fui incapaz de entender. Os pobres homens nada tinham feito.
Atrás dos indesejados, adentram vinte outros indivíduos. Vinte ou mais: não me concentrei em contá-los. Os gritos e vaias foram tais que apenas tentava me esquivar. De repente, os rapazes se dividem. Formam-se dois grupos, que agora se deslocam para cada uma das metades da arena. O corpo esférico é posto entre as tais metades. E após um ruído estridente, paralelo a um movimento daquele que primeiro surgiu aos olhos de quem assistia, um dos vinte indivíduos que entraram no plano passou o pé sobre a redonda, fazendo-a movimentar-se em direção a um dos que estavam em sua metade.
Hora ou outra, um dos moços avulsava o corpo alvo de pontapés durante todo o tempo do esquisito procedimento análogo a um massacre sem serra elétrica. A gentalha próxima a mim algazarrava. Pelo que pude perceber a exultação só se fazia notar em momentos em que um dos, agora titulados, lutadores conseguiam, de alguma maneira, transpôr o artefato por algumas pilastras longínquas de semelhantes e opostas as de seu bando.
Não me atrevi a indagar um dos loucos espectadores sobre o que ocorria. De fato, só pude penetrar o recinto, após a perda de alguns cruzeiros e me retirei com a estranha sensação de que estive em um hospício, onde toda e qualquer atenção dirigia-se apenas para aquele corpúsculo, chamado por aqui de bola.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Dor de Saudade

Quão amena é a dor de uma saudade
Quando se teima em sangrar-se na tristeza
Das severas e impassionais punições amorosas.

Quão sofrível é o caminhar de um amante
Quando se inspira na angústia fúnebre
De noções não escassas mas fartas de saudade.

Ah! Como são tristes as saudades.
Mesmo as azuis.
Mesmo as florais.
Vagam o peito e agridem as metas
De quem encontra abrigo nos monólogos
Disfarçados em episódios de uma vida falsária.

domingo, 5 de julho de 2009

MEu Lírico

Eram apenas bons amigos. E não desde o começo. Nunca é. Há sempre um ato concretizar de amizades. Ou paixões. Amizades! Ele se apaixonou. Antes da amizade expôr-se em abraços e carícias aconchegantes. Aconchegos semelhantes aos de um colo materno no sexto mês de jornada. Aconchegos prazerosos como o saboreio de um copo d'água no Atacama. Necessários. Sim! Tornaram-se necessários os abraços da doce moça dócil.
A paixão do rapaz se escondia em sua cruel autoanálise. E não a primeira paixão envergonhada. Era apenas mais uma. Não era feio. Mas temia ser citado como exemplo de imperfeições físicas ou morais. A moça sorri. Sempre sorria. E massacrava o estar de quem assistia a sua performance junto aos lábios de amigos seus. Ele sorria. Sorriso amarelo. Sorriso falsário e pouco visível em seu semblante de amargura.
Permaneciam bons amigos. Ele sofria. Ela não sabia que o moço escrevia angústias suas sobre o par. O par de bons amigos que vivem toda a noite um romance que nunca existiu.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Sambista

Sou sambista.
Sambista de pernas longas
E disformes pra sambar.
Vou de bloco.
Vou na pista.
Sou sambista.
Nasci pra sambar.
E no embalo cambaleio
Bem no ritmo.
Apolítico.
Pierrot ao som batuque.
Não me espere
Que eu não volto.
Vou cruzando a avenida
Endiabrado.
Embriagado.
Sou sambista.
Vou sambar.

terça-feira, 30 de junho de 2009

Desnexo

A minha janela fica ao lado da porta
Visitas sofríveis dispenso aos flancos
Do lado de fora, estou me chamando
Atendo? Ou fico aqui, sonhando?
Questiono o impasse de pensar ou viver.
Posiciono a mente no estar; no ser
E trafego por sobre minúcias.
Minúcias desfoques de nexos sentidos
Que vagam no eterno
E encontram abrigo no vazio
De um cômodo sem portas ou janelas.

Anderson Ferreira e Gabriel Pereira

-Gabriel Pereira posta em: riscodevapor.blogspot

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Desapego

Fartou-se de fatos falidos.
E deitado, distou-se de ditosas ditas.
Nos cordéis complexados cantou
Atlas artilheiros de apuros andantes.
Reinado. Roubado. Rinçado
De tristes trapaças. Tulipas tombadas.
Amargurado e farto perdeu o padrão.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Tiros Fora

Dia desses no Engenho
O angustiado.
Abalado.
Só.
Pensou?!
Nunca pensou.
Ao três.oito se apegou
Por tortas ruas atravessou
e num súbito rompante
Atirou.
Olhem que sorte!
O tal cartucho desviou.
Bateu na mesa do boteco.
Encharcou de cachaça a vidraça.
Foi o Zé quem derramou.
E se a viúva embreagada.
Fosse senhora encantada
O tiroteio seguiria.
Traçaria sua
Trilha.
Mas
de
certo
era pagã.
Xingou dois
pares. Palavrão!
Peitou a largos gritos
O dono da carabina.
E no confuso vai-vem
Matou coelhos.
Dois em um.
Salvou a
moça
do
morrer.
E, pistoleira
Abalou o atirador.
Virando alvo de cobiça
Tarde a dentro lá no Engenho.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Temporalidade

E quando a luz já tiver se deitado
E a ausência tua restar-me em companhia?
E quando os louros de uma conquista amarelarem
E, na fadiga, pousarem os futuros anseios?
E quando puderes ver o mesmo entardecer que vejo
Mas, apenas no pretérito saciarmo-nos em carícias?
E ao menor sinal do imaginário, criar a ilusão
De uma ditosa face quando paralela à tua.

Anderson Ferreira e Octavio Peral

-Octavio Peral posta em:
puxeempurre.blogspot

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Retrato

Na tela, as tinturas amarguravam-se
Postavam um escárnio de angústia.
A modéstia insinuante era penosa
Um descaso às margens do social.
Massacrados guris.
Pés descalços, tão rotos
Envoltos em ações arbitrárias.
O desloque é massante
Estada aflição o reflexo na face.
Falo de faces encarceradas!
Faces tristonhas e apunhaladas.
Crueldade!
A crueldade de um futuro presente
Manchado por cartas finanças.
Nos morros, barracos, empresas:
Vende-se almas.
Vende-se vidas.
Almas vividas que no divertir-se do asfalto
Ascendem ao purgatório.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Depresso

Vão aos altos e longos saltos
Os entorpecidos pés de anseio
Memorados por cantigas crotaladas
Encalçados por arestas desgrenhadas.
Abismadas.
Sim! São, de fato, abismadas
As noções de plangência, dolência.
E por calçadas de sutil volúpia
Enfiadas por imas entranhas
O opresso de si estila culpa
Estirado ao vórtice do silabar
De um zurrado e funesto sussurro.

sábado, 16 de maio de 2009

Presença Ausente

Teus seios inda estão em minhas mãos.
Sentido ausente de ti no carnal
No viver, um penar pela torpe seqüencia.
Enfraqueceram-se as bases amorosas
Pelo distar de correspondentes vivências
Aquelas tão tímidas e melodiosas
Que amarguravam-se do bem estar
O crítico e infindável bem estar
De almas que encharcavam-se d'outra.
Oh Deus! Encerraste duas vidas
Com apenas um deitar em leito eterno.
No sufoco do amor solitário
Excluo as premissas futuras e conjuntas a ti
E dobro-me à morte como um amante calado.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Perfeição

É inquietante buscar a perfeição.
De tanto repousarem em meus ouvidos
As notórias e impossíveis noções do perfeito
Rendi-me às barreiras de quem o busca.
Mas, de fato, não me isentei do anseio
De fazê-lo mostrar-se concreto.
Posso tornar perfeito o meu caminhar.
Distoar do que dizem nas calçadas.

Perfeição não, não é figura sobre a pele.
Não é retalho que esconde a tal figura.
Perfeito é aquele que repousa são.
O que dedicou-se ao caráter fiel.
O caçador à procura da suposta perfeição.
Este é perfeito, pois se deita na extinta fé.
E faz dos pecados um convite ao primor.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Fim do Laço

Vira a esquina, a senhora.
A frígida senhora.
Mas, de fato, a soberana.
Logo ela dedicou-se a metas amanhãs.
Nas errôneas locuções do par
Convidou-se aos dedos livres.
Ou somente o canhoto anelar.
Antes rodeado do compromisso diário.
Compromisso com que, agora abranda a saudade
Simplesmente em vistosos episódios de papel.
Pois, suas lembranças abstratas dissolveram-se
Como o suposto amor alheio.
Maldita seja a fadiga!
Aquela que roubou-lhe os atentos.
Os mesmos que seriam dirigidos a verbetes companheiros.
Ah! Como é sofrido fantasiar-se de vivente
Estanto a alma densa de solidão.
Aos poucos, carrega-se da fúnebre afeição.
O distanciar dos passos da moça
É como o cruzar amolado no peito.
Se o tal tesouro desencontra o restaurar
Inclina-se a morte o sujeito vazio.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Liberdade?

Será o que a liberdade?
A noção do caminhar desregulado?
Uma proposta do nada justificar?

Será o que a liberdade?
O descansar de um apelo ordinário?
O navegar de traços santos e eleitos?

Será o que a liberdade?
Tratar de isentar-se da névoa donatária?
Buscar na vivência liberta, um algo novato?

E se viver for idealizar vitórias batalhas?
E se liberdade for um decreto derradeiro do lutar?
Será o que essa tal liberdade?

quarta-feira, 25 de março de 2009

Despedida (Doce Distância)

Doce distância cegou-me em instante.
Lançou-me a veredas desfalques de ti.
Brusco martírio. Destroços humanos.
Por ora, não creio viver desprovido.
Isento de cândidos e belos traços teus.

Oh! Desgraça jornada.
Guiou-me ao sorriso e roubou-me detrás.
Minúcias marcantes situo ao pensar.
Envolvo-me em atlas de nossa paixão.
Ditosos momentos, impuros que são.
Gostosas escalas. Projetos morais.

Contorno-me por densas lágrimas.
Motivas ao fato: ausentas do teu.
Agudo sofrer suprime teu sítio.
Por mais que lhe busque em simbiose.
Jamais formatarei-me da doce.
Doce distância que cegou-me em instante.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Avôhai

De tesouros desvalidos
Faço deles condição.
Condição para um sorriso.
Um júbilo contrastante.
A emoção de ter na vida
Motivantes digressões.
Episódios manuscritos.
Concorrentes à missão.

Se lá fora, sangra a vista.
Vou da prenda fazer lar.
Navegante desses traços
Que de tênues, me oscilo.
Arvoredos vou dispor.
Folhas limpas da desforra.
Da angústia que enfatizam
Os tablóides de nanquim.

De tão torpe é a grafia.
Discrepante do sonhar.
Se cogito primaveras.
No fitar, a crença perco.
Apesar do panorama
Segurança não disperso.
Sou risote, por escárnio.
Avôhai. Perseverança!

domingo, 8 de março de 2009

Cotidiano Passional

Passo dias, noites, manhãs
Redescobrindo uma paixão.
Simplificando as hipóteses.
Flagras românticos, mágicos.
Recorro aos encantos teus.
A comunhão de almas excita.
Só em ti encontro morada.
E na fachada, já pichada
Se estendem as marcas
De um amor inacabado.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Vida de Circo

Surjo ao longe feito circo.
De morada faço praças.
Praças traças de humanismo.
E num decurso me situo.
Sobreponho minha lona.
Já tão rota por batalhas.
Construiu-se um firmamento
De estruturas vicinais.
Tanto quanto um equilibrista.
Distancio do ir ao chão.
Com proveito dos reveses.
Subjugo o pressentido.
Se da salva torno hábito.
Sou palhaço. Sou circense.
Com idéias malabares
Faço sustento da arte.

Antes

Antes de o sol nascer, noite gelada.
Antes de me acordar, vem um carinho.
Antes de ficarmos juntos, estou sozinho.
Antes de abraçar, estar de mãos dadas.

Antes do que quero, um chamego.
Antes de tentar dormir, olhos fechados.
Antes de se despedir, coração apertado.
Mas antes disso, não sei se mereço.

Antes de olhar pra o céu, um bom suspiro.
Antes de provar o doce, tudo é amargo.
Antes até de casar, ser namorado.
Antes de tudo, amar e ser amado.

Antes de te conhecer, eu não sei nada.
Antes de acontecer, sabia nada.
Antes de tentar entender, me decepciono.
Agora que eu já conheço, ainda não sei nada.

João Marcos Chagas

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Detalhes

Ah! Como são fundamentais os detalhes. É intrigante o fato de tão pouco significar mudanças tão expressivas na vida de infinitos humanos. Certamente, se fosse pela ausência delas, a jornada de um sujeito não se tornaria tão mais amena e ditosa como a daquele de sobrenome Neves. Exatamente aquele que, de todos, ignorava as meticulosidades como ninguém. Sim! Sua vida mudaria pelo que jamais pensou em dar o mínimo de relevância. Sua experiência, notada pela ideologia antiquada, não o fazia autor de seus próprios embaraços. O contexto não se dobrava aos caprichos de cinqüenta ou sessenta anos na trilha de uma de suas personagens.
O periódico soar do despertador sobre a cabeceira de Neves era análogo ao abrupto interromper de uma vida paralela à terrena. Era essa a descrição de sonho para aquele indivíduo sem esposa, sem filhos. Via como amigos, os senhores que sentavam ao seu lado nas reuniões matinais, mas daqueles apenas a inveja pairava por sobre a figura do chefe que, ingênuo, sentia-se rodeado de confidentes. Errônea interpretação: eram eles, apenas aspirantes à promoção empresarial. Homens capazes de qualquer loucura por um escritório mais amplo e alguns vinténs a mais na fartura.
De pé, conversava com sua imagem espelhada e se tornava o corredor de quarteirões mais recatado do bairro. Sentia orgulho de suas largas e velozes passadas sobre o irregular solo de pedras. Sem dúvida, jamais poderia desperdiçar alguns minutos do longínquo dia, se não alcançasse o cargo mais alto na hierárquica classe de sua firma. Sua corrida ocorria sempre isenta de contratempos e nunca tinha sido interrompida por encontros com certos conhecidos. Pelo menos, nunca antes daquela manhã nublada. Depois de cruzadas algumas quadras, pôs-se à frente de um jovem que faria iniciar em sua vida um carrossel de transformações. O sujeito de nome Pedro planejava tirar de Neves apenas informações sobre a localidade de um medíocre banco local e a respeito das horas tais. Neves perdeu alguns segundos na leitura do relógio, mas recusou explicitar a melhor opção de chegada ao banco. Pensava inutilizar muito tempo na explicação. Ao invés disso, partilhou um sorriso forçado e pôs-se a caminhar, e apenas caminhar, pois naquele dia não estava tão disposto como nos anteriores. A forçada substituição na atividade roubou-lhe certos minutos e ditou um atraso. Este, pouco expressivo, mas não para Neves, que pousou frente ao volante e curvou-se à fé de haverem sumidos os autos que diariamente lotavam e paralisavam as vias principais. Antes do estresse graças às orações em vão, porém, teria ele que argumentar o "Não!" dito ao vizinho Rubens que sempre saia depois de Neves e no dito dia viu partir da garagem o veículo do afortunado empreendedor, sujeitando-se a pedir uma simples carona ao serviço: um percurso que fazia a bordo do incômodo ônibus pego algumas quadras distantes dali. Num rápido balancete, o atrasado Neves havia perdido irremediáveis vinte e cinco minutos; e dos grandes.
Rubens, desapontado pela negação do vizinho, também havia perdido um valioso tempo na breve discussão. Teria então, que se contentar com a amarga espera pelo próximo coletivo, já que assistiu à saída do que costumava adentrar há cinco anos, desde que se mudara para o bairro. Após quinze minutos surgia o ônibus na via. Estava cheio, mas partilhava de algum espaço no corredor. Após cruzar algumas ruas, o veículo pôs-se na principal via do local - a mesma onde se encontrava o automóvel de Neves. Rubens respirava um ar vingativo e acabou torcendo pelo atraso do conhecido. Por azar, um acidente envolvendo três carros transformou o engarrafamento diário em um castigo para quem passava por ali. Decorridos alguns instantes, quando ambos continuavam estáticos em seus veículos, Rubens inquietou-se com as atitudes de um sujeito sentado a sua frente. Começou a arquitetar um hipotético assalto e, não quis presenciar a concretização de suas pré-vivências. Longe ainda de seu ponto de descida, acabou saltando do ônibus que mais tarde seria realmente cenário de um assalto praticado pelo rapaz suspeito, juntamente com seus comparsas que aguardavam mais a frente, em uma das esquinas seguintes. O assalto ocorreria de maneira tranqüila somente se a incerteza de Rubens não o fizesse alertar militares de serviço próximo ao ponto em que havia descido. De fato, havia ele premeditado o assalto. Percebendo a aproximação de viaturas ao coletivo já assaltado, a corja resolveu arriscar uma fuga, descendo do ônibus e roubando um carro menor e mais rápido. Por ventura, no cruzamento a frente do local onde desceram, havia um auto guiado por uma doce senhora que rapidamente desceu do veículo deixando-o com os fugitivos. Márcia era seu nome. Ela já passava dos cinqüenta anos e, viúva desde os quarenta e oito, não se relacionava com ninguém desde o tal ano. De fato, era bela e não deixava transparecer a idade a qualquer um que observasse sua enxuta e cuidada silhueta.
Neves, a essa altura, já se mostrava completamente irritado por seu atraso a uma reunião importante em que teria que comparecer naquela manhã. O senhor atribuía a impontualidade ao jovem que havia lhe indagado sobre o maldito banco e ao vizinho que justo naquela manhã pôs-se a pedir uma carona. Neves estava disposto a distanciar-se da principal via, enfiando-se entre ruelas por onde não corria aquele trânsito infernal. E, quando observou uma oportunidade, distanciou-se do caos automotivo buscando contornar o infeliz atraso. Mas, como por uma possível resposta da vida a seus causos pagãos, vitrines humanas o fizeram desviar o olhar atento ao asfalto. Por Deus! Era Márcia, a senhora que por pouco não se vitimou do atropelo de um sujeito apressado. Partia ela em direção a uma delegacia, onde pudesse queixar-se do assalto vivido a poucos, quando, repentinamente, curvou-se ao susto fruto da brusca brecada no carro de Neves. Ele mostrou-se surpreso ao ocorrido e tentava deixar claro que, embora dispersado momentaneamente, jamais antes havia passado pela experiência. O homem tentou enfiá-la no carro para partir em busca de um centro médico, mas teve que contentar-se em apenas levá-la ao posto policial. A essa altura, sua reunião empresarial já não apresentava cunho tão importante quando antes. Tanto que ladeou a mulher em seu procedimento de acusação. E acabou deslocando-se a uma prosa entre seres que mostravam entrosamento tal qual o de íntimos e antigos conhecidos.
Doce destino o que uniu os dois. Sabe-se apenas que há muitos anos haviam se relacionado Neves e Márcia. Entre promessas de civil e festeira união, a desgraça os tornou amantes simplesmente no imaginário amar. Neves viu-se sob a idéia de uma ríspida e forçada viagem. E, na pressão de esquecer o primeiro amor, Márcia assinou um casamento de interesses próprios. Mesmo assim, seu relacionamento mostrou-se longo e a moça cogitou a presença do amar em sua nova relação. Entretanto, por desandos da vida, o novo par veio a falecer, tornando inexistentes os anseios amorosos da tristonha senhora. Márcia prometia desde aquele momento que jamais em sua vida se relacionaria outra vez. Mas o inesperado encontro de sentimentos recíprocos acendeu na vida de ambos a busca pelo companheirismo até seus últimos verões. Ambos eram ali premiados com um novo nascimento e, graças a pequenos detalhes, desfrutariam de um real amor que nunca se apagou.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Paciência

De onde vem a paciência?
Como um ser carregado de energia consegue ter paciência?
Como o paciente adoentado consegue ser paciente?
Esperar.
Aguardar.
E se for demorar?
Um minuto.
Um dia.
Uma semana.
Será que a paciência do paciente vai ser também paciente?
E se não for?
O paciente se vê agora sem paciência.
Não pode ser mais chamado como é.
Seu novo nome, apressado.
Sua pressa agora é sua principal característica.
Sua paciência também tinha pressa.
Não podia esperar tanto tempo.
Partiu.
O apressado corre.
Chegar a tempo é necessário
Para que a paciência de quem o espera não se vá.
Se demorar precisará de paciência para aguardar a próxima chance.
E se ela não chegar?
Paciência!

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Miragem Perfeita

Até pensei que fosse minha.
Quando te tombei o oblíquo olhar
E avistei seu complemento.
Se és senhora dos olhos teus
Guia-os para os mais prazerosos descansos.
O seu refúgio foi recíproco:
Aquele que, mesmo em distância
Repousava sobre os castanhos vitrais entreabertos.

Até pensei que fosses minha.
Ao construir-se um sorriso incomparável
Na face isenta de traços fúteis.
Quando, num passe, projetei-me ao lado teu.
E naveguei por sobre o nível
Mesmo não sendo um tal asado.

Até pensei que fosses minha.
Quando me livrei da razão.
E ponderei estarmos nós
Eqüidistantes da ventura.
Se irrelevei passados e torpes causos.
E pus-me anseios de um futuro passional.

Mas, fatalmente, apenas pensei que fosses minha.
Fez-se concreta a miragem
Da mais bela e cândida figura.
De fato, era aquela a estátua da pureza
Que, por descuido, se fantasiou de sonho
Quando invadiram incômodos raios
E tornaram pó, os ilusórios e seguintes episódios.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Confidência

Eu, sozinho e só
Dedico horas a ti.
Impassível e inquieto
Passeio pelos atributos teus.
Não somente o visível.
Da doçura faço estudo.
E me inclino a tua pureza.
Dobro-me à ilusão
E lhe toco a pele.
Ah! Como viajo nos sonhos.
Sonhar com meus olhos
Perdidos no espelhar dos teus
É análogo à satisfação
De quem honra cada segundo do viver.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Leão Sentimental (Fatos)

Lancei-me aos leões.
Por óbvio descuido, é verdade.
Mas, de fato, fiz-me presa.

Desconfio do rubro mental escoando.
Ao senhor, resta apenas o plural.
Pois, de fato, rodeiam-me os leões.

Se acréscimos, punições? Nada sei.
E não concentro a ignorância.
É, de fato, o que indagam na esquina.

Dos leões coloridos ciencio.
Um pingo alvo no amplo breu é gabarito.
Sim! De fato, escassez é fino ouro.

Em certa altura, ao Seu Leitor, é obscuro.
Porém, recuso lhe calar indagações.
Vez ou outra, o tal leão te rodeou.
Afronte o fato: a paixão já te guiou.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Ação Ritmada

Bambo andar o que me desloca à ação.
Se das trevas cruzei contos em abundância.
E planei por sobre a trilha encarcerada.
Submeto-me à ação, mas desconheço o agravante.
Ao dia, ao léu. Traço angústias flutuantes.
As tais pousam no papiro sobre a mesa.
Escravizadas são insígnias que, no contexto
Descrevem a ilusão de quem diz sonhar constante.
Sim! Dos sonhos nasceu o contexto.
O explicitado com o ritmo das quimeras rebuscadas.
O que distancia do entendido frente aos olhos do leitor.
O simplório movimento das cifras vividas e futuras do pensante.
De fato, torna-se arte o entusiasmante refazer.
Sentar-se a beira do cenário que se quer.
E esboçar, sem certos pudores, o visitante abstrato.
É gostoso traduzir intenções e torná-las concretas.
Navegar em idéias sentidas e, com o mínimo alento
Poder descrever-se como um poeta.

sábado, 31 de janeiro de 2009

Reencontro

Seus olhos, por que me estranham tanto?
Sinto o confiscar do sorriso prisioneiro dos lábios meus.
Os mesmos pés que da labuta fizeram uma constante
Repousam agora diante do alvo afetivo.

Seus olhos, por que me estranham tanto?
Se por vezes naveguei em seu brilhar.
Julgo ingrata a condição que me arrastou para longe.
E confesso ter preenchido meus dias com lembranças suas.

Seus olhos, por que me estranham tanto?
Por sob as marcas que o tempo esculpiu em minha face
Encondem-se a nódoas de um contrariado romance.
Um derradeiro que jamais encostará
Na rotina de quem perde os sentidos.


Ah! Por que me estranhas tanto?
Se nas noites fiz razão surgir da idolatria.
Tracei planos de fuga para libertar-me do evasivo.
E jurei descansar apenas quando fizesse
De seus olhos, um refúgio para os meus.